Escatologia, do grego “eskaton” (eskhaton), estudo do futuro absoluto ou extremo, trata das coisas extremas que acontecerão ao mundo e às pessoas.[1] Na escatologia (reflexão sobre as últimas coisas)[2] sabemos da reflexão a respeito dos “novíssimos”; tudo o que “diz respeito ao céu, inferno, purgatório, morte, vida, ressurreição, ascensão etc.”[3]
Fazer Escatologia é um grande desafio e ao mesmo tempo “o estudo dos novíssimos é limitado: apela para uma linguagem indicativa, que aponta para…, que sinaliza para…, mas que jamais poderá descrever o que continua sendo futuro para todos os seres vivos.”[4] “O Céu veio até nós através de Jesus e se tornou uma possibilidade e promessa para todos.”[5]
As sagradas escrituras usam várias expressões ao termo teológico Céu (“coelum”, calon = cavidade; ousanoj = coberta); reino dos céus; reino de Deus, vida, vida eterna, salvação, reino, paraíso, glória do Senhor, banquete nupcial, banquete, etc. Portanto, não devemos considerar o céu como um lugar senão como um estado de eterna recompensa para os justos. (cf. Jo 14,2-3).[6]
Faremos a seguir um pequeno esboço a respeito de um dos novíssimos, a saber, o Céu; “estado definitivo e consumado de felicidade do homem agraciado com a autocomunicação de Deus”[7], mas a partir de três momentos: bíblico; antigo e novo testamento, patrístico e moderno.
- Fundamentação Bíblica
1.1 Antigo Testamento
O Antigo Testamento representa Deus como habitante de um lugar determinado, em companhia com seus anjos e santos e das legiões dos espíritos. O livro da sabedoria, que constitui o ponto culminante da escatologia do Antigo Testamento; afirma que os justos estão junto de Deus, na paz e na vida eterna; brilham como centelhas ardentes, com aspecto de rei e de juízes (3,1-8); trazem coroas na cabeça (4,2); o Senhor é sua recompensa e confere-lhes sua beleza e honra (5,16-17). Em Daniel os bons despertam para a vida eterna e os sábios brilham eternamente como estrelas no esplendor do Céu (Dn 12,2-3).[8]
Não devemos formalizar excessivamente sobre a palavra “céu” no AT. Aqui se usa a expressão “terra nova”, “novo céu” (Isaias), por muito tempo, para indicar o lugar da sanção eterna no futuro, quando vier a ressurreição dos mortos e os justos morarem na nova Jerusalém. No livro da Sabedoria os bem-aventurados repousam nas mãos de Deus (3,1), em paz (3,3), na esperança da imortalidade (3,4), Deus será seu rei por toda a eternidade (3,8), que os pôs a salvo (4,17), e sabe que os maus estarão entre os mortos, na vergonha sempiterna (4,19).[9]
A fé na vida eterna, no Antigo Testamento, sofre uma evolução: inicialmente, entende-se a morte como fim total, mas com o tempo, começa-se a falar em ressurreição dos justos e até mesmo em imortalidade da alma.[10]
1.2 Novo Testamento
No Novo Testamento, “céu” tem um tríplice significado: 1) O céu estrelado material; 2) a morada de Deus; 3) o lugar da felicidade eterna dos filhos de Deus, e este último encontra-se mais correntemente.[11]
Jesus usa imagens para falar do céu e da felicidade que lá se goza. Lá se mora como na casa paterna; lá se sente alegria, saciados, à mesa de Deus, entre luzes e cantos de júbilo. O pai de família está nos céus, admite os seus na maior intimidade e os recompensa por seus méritos. Assim se revela o paraíso no Sermão da Montanha e nas parábolas do reino celeste. Jesus não podia deixar de usar essas imagens sensíveis falando do mundo invisível do além. Às vezes, seu falar eleva-se a um tom mais espiritual.[12]
A vida eterna consiste no conhecimento de Deus (Jo 17,3). Lá não haverá matrimônio ou procriação, todos serão como anjos (Mt 22,30).[13]
São Paulo fala de sua arrebatação ao terceiro céu, mas o que lá ouviu era misterioso e não pode exprimir (II Cor 12,1-4), dizendo que olho não viu, ouvido não ouviu, coração humano não experimentou… (I Cor 2,9), pois para nós Deus é luz inacessível (I Tm 6,15-16) e o paraíso é a vida eterna junto de Deus (Rm 2,7; 5,21;6,22; Gl 6,8; I Tm 4,8; Tt 3,7) e sua glória (Rm 8,18; Cl 1,27; I Tm 1,11; Hb 2,10).[14]
Segundo São João ainda não se manifestou o que seremos, mas o veremos como ele é (I Jo 3,1-2.14). Deus é luz para nós, conhecimento luminoso (I Jo 1,5.7) como sol sobre a terra (Ap 22,4-5), o céu é a nova Jerusalém, a cidade de Deus (Ap 21,1-22; cf. 19,7-8; 14,3-4; 7,15; I Pd 3,22; Tg 2,5; Jd 21.[15]
A vida eterna se torna mais clara e segura no Novo Testamento. Os escritos mostram que nossa vida possui a semente da eternidade a partir de Jesus morto e ressuscitado e caminha para uma plenitude após a morte. Ela é promessa e graça de Deus para nós.[16]
- Fundamentação Patrística
Na teologia patrística é mais acentuada a dimensão coletiva e histórica; os temas da reflexão escatológica são em primeiro lugar; o juízo final, o fim do mundo, a ressurreição dos mortos.[17] Os santos Padres em geral dependem da cosmologia vigente então. Contudo, não se sentem atrapalhados por essa cosmologia e logram situar-se no plano teológico. O céu é o reino de Deus. A descrição do céu esquece a perspectiva da salvação.[18]
Os Padres ensinaram que os anjos e os bem-aventurados vivem no céu, uma vida de alegria e de felicidade. Assim Hermas, São Policarpo, São Justino, São Teófilo, Santo Irineu, Tertuliano, São Cipriano. Para a visão divina dos bem-aventurados, eles fundam-se em Mt 5,8; I Cor 13,12; I Jo 3,2. Alguns Padres (Orígenes, Teodureto de Ciro, Teodoro de Mopsuéstia e talvez São João Crisóstomo) creram que um espírito criado não pode ver o Espírito incriado. Mas isso é exato só na medida em que espírito criado necessita de uma luz de graça sobrenatural (lumen gloriae), que Deus concede.[19]
Santo Agostinho é o único a tratar a fundo essa questão, que segundo ele a bem aventurança consiste na visão de Deus; também os olhos do corpo glorificado participarão talvez dessa visão (cf. Cidade de Deus, traça um magnifico quadro da vida do além). Quando despontar o dia sem ocaso, lá descansaremos e veremos, veremos e amaremos, amaremos e louvaremos, eis o que será no fim sem fim.[20]
Para concluir, os Padres falam da bem-aventurança do céu, sem a mínima preocupação pelo lugar, além do mais, o símbolo da fé rezado jamais deu azo a indagações curiosas, mas sempre foi pura e simplesmente objeto de fé.[21]
- Uma das visões modernas na teologia
De forma rápida uma pequena reflexão, uma vez que a exposição será breve.
BLANK 1993, nos apresenta uma mudança em relação à estruturação dos enfoques da escatologia do século XX; a) enfoque apocalíptico-neo-escolástico: a escatologia trata dos fim do mundo; b) enfoque utópico-finalista: trata da nova era a vir depois do fim do mundo; e c) enfoque cristológico-transformador: trata da salvação escatológica como plenificação de processo de transformação que já começou na história atual.[22]
A crítica racionalista afirma ser uma questão espinhosa e difícil para a dogmática, a de estabelecer o lugar do Paraíso. Esta é uma questão sem resposta. Não existe uma “topografia do além” e mesmo com os dados da revelação, não estamos em condições de estabelecer alguma. Nada nos disse Jesus Cristo sobre o tempo e a hora, muito menos acerca do lugar e a situação. Lubenow aconselha a não se usar mais no ensinamento a palavra “céu”, e ainda Davi Strauss sarcasticamente dizia que no céu já não há lugar para Deus e os santos, pois sabe-se que o céu está todo ocupado por uma grande quantidade de outras coisas, estrelas, etc.[23]
Nosso dever é considerar a revelação; a) a revelação não oferece a representação do mundo em três andares de que se fala; b) nenhuma doutrina apresenta sobre um além local, a não ser algumas alusões aos lugares do além, ela fala unicamente da felicidade ou das penas que lá se encontram.[24]
Uma crítica atual sobre o céu cristão está no livro em espanhol de Juan-José Tamayo-Acosta, “Para comprender la Escatologia Cristiana”[25] cujo subtítulo é muito sugestivo: “O céu como projeção, ideal e arquétipo da consciência coletiva”. Veremos um resumo desta abordagem.
Inicia afirmando: “O céu cristão não é outra coisa que projeção de desejos, e projeção ilusória, fantasmagórica, alheio à realidade, evasivo, e, portanto, algo para expor e desmistificar.” (p. 222)
Leva em consideração a antropologia de Feruerbach que dizia que a existência dos anseios, a essência da divindade manifestada objetivamente e a subjetividade é a expressão sincera dos pensamentos mais íntimos da religião. E, os deuses são os desejos do coração humano que se tornam reais.
Citando Marx; a crítica do céu se converte em crítica da terra e a crítica da religião na crítica do direito e a crítica da teologia em crítica da política. A religião é uma ilusão que tem os dias contados na medida em que a ciência se faz com as rédeas da realidade.
Enquanto Ernest Bloch, filósofo da esperança e teórico da utopia, defende o caráter essencial e irrenunciável projetivo, utópico, desiderativo, do ser humano, Freud “ignorou o aguilhão da fome” presente no proletariado cujos conflitos neurológicos não consistem, desgraçadamente, em coisas tão elevadas como a fixação da libido em certas zonas erógenas, dando ao homem uma ideia “mecânico-materialista” de natureza. Ou seja, a crítica antropológica da religião libera da consciência supersticiosa. Qual a conclusão? O ateísmo pode libertar e de fato liberta, do medo, porém não pode libertar dos conteúdos desiderativos, dos tesouros da religião, a não ser que se caia em formas mesquinhas de ateísmo.
Por isso, Bloch defende a fé como uma fé de esperança, que não se pode considerar em absoluto como superstição, e sim a contempla no marco da utopia concreta e de uma concepção aberta, dinâmica e processual do mundo.
Concluindo esta reflexão, a crítica continua: “Hoje está diminuindo a crença no céu, é verdade”, citando J. Kerkhofs[26], porém, como asseveram lucidamente B. Van Iersel e E. Schillebeeckx, “o céu segue sendo um dos arquétipos da consciência coletiva da maior parte dos povos, e influi todavia de maneira considerável no mundo imaginativo cristão”. Mas, ainda constitui um dos mais elevados ideais aspirados, ao que resulta difícil renunciar se se contempla a realidade desde sua perspectiva utópico-emancipadora.
E, e interessante a sua conclusão a este respeito, porque o que vemos é um desenrolar que justifica seu pensamento: “Sob a imagem do céu você tentar responder à pergunta sobre o sentido último da vida, da realidade, da história.”[27]
Fechando seu raciocínio, ACOSTA 1993; “Além de suas conotações mítico-cosmológicas, o céu constitui para o cristianismo o futuro absoluto (L. Boros), o cumprimento absoluto da vida (Libânio-Bingemer), a plenitude definitiva da existência humana graças ao amor consumado (Ratzinger), toda a felicidade que vem com o estar com Deus (Nocke).
Conclusão
O mundo não tem sido capaz de fazer reflexões transcendentes porque está muito preso àquilo que é imediato, que pode ser comprovado. Tristeza maior quando um teólogo sofre a mesma tentação. Culpa, em partes da ciência com sua análise empírica (aquilo que é palpável) e por outro a falta da aproximação do objeto da teologia; Deus.
A Boa-nova de Jesus é uma mensagem de esperança e não de condenação. A esperança do céu não pode apagar, nem a esperança e a luta por um mundo e uma sociedade novos.[28]
Ao verificar os pontos de vista da imagem do céu; antigo e novo testamento, a visão dos Padres da Igreja e a reflexões atuais, percebemos a conclusão do final da terceira parte quando o autor coloca justamente a realidade de que “hoje, está diminuindo a crença no céu”.
Por um lado, a responsabilidade está no fato de talvez a pregação ter se voltado para outros horizontes; aquilo que é terreno esquecendo, alguns, que foram constituídos para lembrar como Paulo afirmava, “Nós, porém, somos cidadãos dos Céus” (Fl 3,20)
Por: Rogério Viana
Referências
ACOSTA, Juan José Tamayo. Para comprender la Escatologia Cristiana, El cielo como proyección, ideal y arquetipo de la conciencia colectiva, pp. 222-224 [Espanhol: Tradução Nossa], Navarra: Editorial Verbo Divino, 1993.
BARTMANN, Bernardo. Teologia dogmática: Sacramentos – Escatologia. São Paulo: Paulinas, 1962. 521 p.
BLANK, Renold Johann. Nosso mundo tem futuro: Escatologia cristã, 2. São Paulo: Paulinas, 1993. 165 p. (Teologia sistemática)
MANZATTO, Antônio; PASSOS, João Décio; VILLAC, Sylvia. De esperança em esperança: escatologia. São Paulo: Paulus, 2009. 152p.
RAHNER, Karl. Curso fundamental da fé: Introdução ao conceito de cristianismo. 4. ed. São Paulo: Paulus, 2008. 531p.
VAZ, Eurides Divino, Fr. Escatologia: reflexão sobre o céu, inferno e purgatório. Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 7, n. 23 , p. 83-98, 1997.
[1] Antônio Manzatto, João Décio Passos, Sylvia Villac, De esperança em esperança, p. 98.
[2] Frei Eurides Divino Vaz, Reflexão sobre o Céu, Inferno e Purgatório, p. 83.
[3] Ibid., p. 84.
[4] Antônio Manzatto, João Décio Passos, Sylvia Villac, De esperança em esperança, p. 98.
[5] Ibid.
[6] Bernardo Bartmann, Teologia Dogmática, p. 430.
[7] Karl Rahner, Curso Fundamental da Fé, p. 502.
[8] Bernardo Bartmann, Teologia Dogmática, p. 430.
[9] Bernardo Bartmann, Teologia Dogmática, p. 435-436.
[10] Antônio Manzatto, João Décio Passos, Sylvia Villac, De esperança em esperança, p. 119.
[11] Bernardo Bartmann, Teologia Dogmática, p. 435.
[12] Ibid., p. 430-431.
[13] Bernardo Bartmann, Teologia Dogmática, p. 431.
[14] Ibid.
[15] Ibid.
[16] Antônio Manzatto, João Décio Passos, Sylvia Villac, De esperança em esperança, p. 119.
[17] Reinold J. Blank, Nosso mundo tem futuro, p. 21.
[18] Juan-José Tamayo-Acosta. Para comprender la Escatologia Cristiana, p. 227.
[19] Bernardo Bartmann, Teologia Dogmática, p. 431
[20] Ibid.
[21] Ibid., p. 437.
[22] Reinold J. Blank, Nosso mundo tem futuro, p. 24-25.
[23] Bernardo Bartmann, Teologia Dogmática, p. 432.
[24] Ibid.
[25] Juan-José Tamayo-Acosta. Para comprender la Escatologia Cristiana, 1993, p.222-224
[26] Juan-José Tamayo-Acosta. Para comprender la Escatologia Cristiana, 1993, p. 224.
[27] Ibid.
[28] Antônio Manzatto, João Décio Passos, Sylvia Villac, De esperança em esperança, p. 119.











Deixe uma resposta