A Moral no Antigo Testamento

Os homens da antiguidade, mesmo os mais chegados a Deus, tinham mentalidade primitiva e, praticavam o que hoje para nós seriam “escândalos morais” – mentira, fraude, crueldade para com os adversários, concubinato, poligamia. Dom Estevão Bettencourt em seu livro “Para entender o Antigo Testamento” (editora Lúmen Christi), nos ajuda a entender esta realidade.

Os textos bíblicos que narram coisas desse tipo deixam chocado o leitor que não se dá conta da moral primitiva desses homens. Pode parecer que nem a consciência repreendia os israelitas que assim procediam, e que nem o próprio Deus os censurava.
Antes de tudo é preciso saber que nem tudo que o Antigo Testamento narra é proposto como “norma de conduta” para nós. Nem todas as ações de um herói (como Sansão, por exemplo) de um livro inspirado por Deus, são inspiradas. A Bíblia não tem erro de doutrina, verdades de fé reveladas por Deus, mas pode ter falhas de outra natureza. A Igreja, assistida pelo Espírito Santo, sabe fazer este discernimento, e é para isto que Jesus deixou o Magistério sagrado do Papa e dos Bispos. A Igreja sabe encontrar as verdades dogmáticas transmitidas mesmo através de histórias às vezes “não edificantes”.

Os “escândalos” narrados no Antigo Testamento fazem parte da miséria dos filhos de Adão. Então, ao se defrontar com os episódios de “barbárie” das Escrituras antigas, não devemos nos prender no aspecto repugnante que eles podem ter; devemos saber passar além da aparência superficial, e olhar “para dentro desses acontecimentos” com o olhar de Deus. Assim, também eles nos falarão de algo muito sublime.

Às vezes no Antigo Testamento os homens considerados justos (Abraão, Moisés, Davi,…) cometem atos ao nosso critério pecaminosos. Para entender esta dificuldade é preciso que consideremos o problema dentro de um quadro à luz de Deus, e não simplesmente do nosso ponto de vista de homens do século XXI.

As obras de Deus são lentas, basta ver como a natureza se desenvolve: a grande árvore começa de uma semente… Também na ordem moral isto ocorre, especialmente no que diz respeito à consciência humana da humanidade. Basta ver como a consciência da criança se desenvolve até a fase adulta. Só aos poucos é que a criança ou o adolescente vai percebendo as consequências concretas daquilo que nos diz a consciência: “faça o bem, evite o mal”.

Com o gênero humano inteiro aconteceu algo semelhante ao que se dá com toda criança: nos primórdios da história, os homens tinham uma consciência moral pouco desenvolvida, a qual  foi se tornando mais apurada e sensível através dos séculos. Deus agiu assim com o homem, de maneira pedagógica.

Isto aconteceu com o povo de Deus, portador da verdadeira fé. Este povo também possuía uma consciência moral ainda embrionária. Sabiam que era preciso “fazer o bem e evitar o mal”, e obedecer a Vontade de Deus; mas na prática este princípio escapava à sua percepção. Jesus fez o mesmo com os Apóstolos. Na última Ceia Ele lhes diz: “Ainda tenho muitas coisas para dizer-lhes, mas vocês não as podeis entender agora. Quando vier o Paráclito…” (Jo 16,12). Só depois de Pentecostes é que os Apóstolos entenderam muitas coisas.

Deus respeita o lento desabrochar da natureza. Esse desabrochar da consciência humana deveria acontecer pela reflexão dos homens de todos os tempos, e pela meditação da Revelação de Deus. Assim, por esses dois meios – reflexão e Revelação – a consciência do povo de Deus foi se aperfeiçoando, desde a  moralidade simples dos Patriarcas do Antigo Testamento até  à lei de Cristo – a caridade. O caminho foi lento e árduo por causa das conseqüências do pecado original que enfraqueceram a inteligência e a vontade do homem.

Deus, para preservar a verdadeira fé e a esperança messiânica no mundo idólatra, escolheu Abraão e sua posteridade para formar o povo e onde nasceria o Messias. Não se pode esquecer que essa gente, oriunda de ambiente pagão (Mesopotâmia), recebeu de seus antepassados na Caldéia, muitas tradições e costumes supersticiosos. Deus teve que polir e elevar esta gente até  à altura do culto do verdadeiro Deus; mas não quis cortar bruscamente todas essas tradições, pois seria antipedagógico, e não seria entendido.

Inicialmente Deus fez o essencial, eliminou, rigorosamente o que era estritamente Politeísta; mas quanto às outras coisas, preferiu ir devagar, contemporizando, aceitando o povo como era, seguindo práticas antigas, mas não politeístas. Assim, por meio dos profetas Deus foi fazendo com que o povo fosse se elevando espiritualmente, até um dia poder ouvir a mensagem do Evangelho: “Este é o meu preceito: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 15, 12)”.

A consciência embrionária do povo no Antigo Testamento, não é incompatível com santidade. Em qualquer época da história, a inocência consiste em que o homem nada faça “contra a sua consciência”, nada que lhe pareça contradizer à Vontade de Deus. Veja, os grandes homens e mulheres da história sagrada, como mostra o texto bíblico, se esforçavam por não violar normas que o seu senso moral (consciência) lhes exigia e, quando por fraqueza, as violaram, se arrependeram disto sinceramente. Há muitos exemplos disso na Bíblia. Esses homens davam a Deus tudo que sabiam que deviam dar-lhe; embora “tudo”, era pouco em comparação com o padrão moral que hoje nos é proposto; mas precisavam de grande esforço.

Na medida em que a consciência não os acusassem, podiam seguir seus costumes primitivos, para nós as vezes bárbasros; e assim não deixavam de obedecer o que Deus lhes pedisse. Era esta incondicional adesão ao Senhor que os tornava justos, santos. Por isso, esses homens são modelos de santidade, para a época, não pelo aspecto exterior de sua vida (que às vezes nos assusta!), mas pelo desejo interior de cumprir a vontade de Deus e lhe ser fiel. Veja a fé de Abraão, o fervor da oração de Davi, o zelo de Elias, são modelos que devemos imitar. A Igreja não os coloca nos altares porque nem sempre suas atitudes servem hoje de modelo de vida.

Para nós que temos o conhecimento do Evangelho, seria ilícito repetir o que era praticado pelos justos do Antigo Testamento, já que a nossa consciência, iluminada por Cristo, tem agora muito mais clara noção  do bem e do mal,  e se torna mais exigente. O que hoje é pecado contra a lei natural sempre foi mau olhos de Deus, já que o mal não depende de mera convenção humana, mas nem sempre isto foi percebido pelos homens antigos, por causa de sua consciência moral pouco desenvolvida. Enfim, Deus quis fazer do homem seu filho, chamando-o a participar de sua vida e da sua felicidade, e para isto o foi educando pedagogicamente.

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Á luz dessas explicações podemos agora compreender porque a lei de Moisés (1240 a.C.) incorporava a lei de talião. O código babilônico, de onde veio Abraão, do rei Hamurabi (1800 a.C.), prescrevia: “Olho vazado por olho vazado” (Art. 196); “membro quebrado por membro quebrado” (Art. 197); “dente espedaçado por dente espedaçado” (Art. 200); “boi por boi, carneiro por carneiro” (Art. 263); “morte ao arquiteto de uma casa que desmorone sobre o proprietário” (Cf. art. 229); “morte ao filho do arquiteto, se a casa cai sobre o filho do proprietário” (Cf. art. 230).

Com o progresso da cultura, os antigos pagãos foram percebendo a imperfeição da retribuição pelo talião.  Consequentemente, admitiam que o criminoso pagasse indenização monetária, caso nisto consentisse a vítima.Ao promulgar a Lei Mosaica, Magna Carta de Israel, o Senhor quis respeitar a tradição da sua gente; para depois reformá-la aos poucos. Jesus, completando o processo pedagógico do Antigo Testamento, aboliu a lei de talião, ordenando que os discípulos perdoassem gratuitamente até os inimigos (cf. Mt. 5, 38-42, 21-15). Às vezes aparece a poligamia no Antigo Testamento, como se Deus a aceitasse. Não é bem assim. O matrimônio, quando aparece na história sagrada, pela primeira vez, é como uma união monogâmica; o Criador mesmo o instituiu e abençoou dando-lhe um valor religioso (cf. Gn 1,28; 2,23s). Por isto, o casamento é chamado “aliança de Deus” (Pr 2,17), aliança “da qual o Senhor é testemunha” (cf. Ml 2,14).

A praxe da poligamia foi reconhecida pela Lei mosaica em 1240 (cf. Dt 17, 17; 21, 15; Lv 18,18), mas isto se explica por um ato de tolerância divina. ‘E o que Jesus disse aos fariseus: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés o permitiu: a princípio, porém, não era assim”.  (Mt 19,8)

No tempo de Abraão uma família numerosa era sinal de bênção divina, a esterilidade era vista como uma maldição (cf. Is 63, 9 e Os 9, 14; Lc 1,25). Assim, a moral da época aceitava que o marido da esposa estéril podia gerar um filho com outra mulher livre ou a escrava da sua esposa; e os filhos da escrava eram  pertencentes à sua esposa. Isto era aceito com naturalidade pelos antigos judeus.

Mas, ao lado dos casos de poligamia, concubinato e divórcio reconhecidos pela Lei, houve na história sagrada, episódios que em hipótese alguma poderiam ser justificados, motivados pela fraqueza humana. Entre esses casos está o pecado de Onã (donde o nome do vício “onanismo”), que Deus puniu severamente (cf. Gn 38, 6-10); o atentado incestuoso dos sodomitas (Gs 19, 1-25); a conduta errada de Salomão, que acarretou, como punição, o cisma do reino deste monarca (cf. 1Rs 11, 1-13, 29-33). Além disso a Lei advertia o rei contra os abusos da poligamia (cf. Dt 17,17).

Prof. Felipe Aquino

5 Comentários

  1. MAGDA LUCIANELLI

    QUERIDO PROF FELIPE, FIQUEI MUITO INTERESSADA NO LIVRO DO DOM ESTEVAO BETTENCOURT COMO ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO MAS ESTOU TENDO DIFICULDADE DE ENCONTRA-LO O SENHOR PODERIA ME AJUDAR????
    QUE DEUS LHE ABENÇOE CADA DIA MAIS COM SUA SABEDORIA PARA Q POSSA TRANSMITI-LA DE FORMA TAO AMOROSA AS PESSOAS QUE COMO EU TEM UMA SEDE GRANDE DAS COISAS DE DEUS.

  2. Olá MAGDA LUCIANELLI

    Caso não saiba onde encontrar eu lhe informo, entre em contato comigo.
    e-mail: ronaldosa@yahoo.com

    Ronaldo

  3. Victor Cardoso

    Muito Bom esse texto…

    Gostei demais.

    Deveria ter mais reflexões a respeito
    do antigo testamento.

    Pois esses textos são muito difícies
    de entender…

  4. Luciano Benedito David

    Prezado Professor,

    Plasmo-me que tenha feito tais afirmações a respeito da “consciência humana” e a a respeito da moral da antiguidade.É fato comprovado, tanto historicamente, como teologicamente que os homens e mulheres que viviam na antiguidade clássica e pré-clássica tinham pleno discernimento de certo e errado e do que era um ato de barbárie e condenável. Nem sequer é necessário listar a inúmeras passagens bíblicas e as incontáveis referencias encontradas em livros não canônicos e históricos. Mas grave ainda é afirmar que Deus seria tolerante com tais atos, sob a justificativa que ele estaria esperando as pessoas se “desenvolverem”(é claro que percebi que o senhor tem o cuidado de não utilizar a palavra correta “evoluir”). Isso é um total despropósito, as ações de Deus seriam sob todos os aspectos atemporais, Deus não espera nada, ele supostamente existe fora do tempo, além do mais, as descrições das ações divinas do antigo testamento são relatos de uma entidade intransigente, impaciente, intolerante, ciumenta e vingativa. O próprio Deus ordena a morte de milhares de pessoas, nem sempre culpadas de alguma coisa, apenas para estabelecer o seu suposto povo na terra santa, que aliás de santa não tem nada, pois qualquer lugar que passe mais de 6 mil anos em guerra, não pode ser um lugar santo.

    De fato, as leis mosáicas são plágios das leis dos povos que dominaram a região do oriente médio, Sumérios, Acádios, Egípcios, Babilônicos, Sírios, Persas. Os decálogo por exemplo teve grande parte retirada do Livro dos Mortos Egípcio, o livro de Levítico é uma compilação das leis Babilônicas e por ai vai.

    O povo Hebreu, assim como os outros povos, eram polígamos por uma questão numérica e não moral. Veja, a normalidade da natureza dos mamíferos é a poligamia, por uma simples razão: A fêmea só pode gerar uma prole de cada vez, mas o macho pode fecundar tantas fêmeas férteis quantas houverem a sua disposição. Isso é o princípio da manutenção da espécie, e num tempo onde número representava poder isso era uma grande vantagem, além é claro de que, com raríssimas exceções, os povos antigos consideravam as mulheres como propriedades e não pessoas, tanto é que são relacionadas entre os bens que não devem ser cobiçados, comparando-as aos jumentos. Portanto, afirmar que as relações polígamas eram um atraso cultural e moral é um completo absurdo. Na verdade, eram uma necessidade estratégica, mesmo porque existiam muito mais mulheres que homens na antiguidade, estima-se que a taxa de mais de 20 para um 1, em razão da baixíssima espectativa de vida para os indivíduos do sexo masculino, que era em média de apenas 30 anos. O relato de anciões de mais de 60 ou 70 anos do antigo testamento são em grande parte alegóricos.

    O povo hebreu da antiguidade, desde Abrãao até Jesus, agia exatamente como todos os outros povos circunvizinhos. Suas ações, do mesmo modo que hoje acontece, não são baseadas na moral, seja ela humana ou divina, são baseadas nas leis dos dominantes, nos costumes arraigados e nos interesses do triangulo do poder (dinheiro, política e religião), nada além disso. Então, cada um dos personagens que cometia um ato de barbárie ou imoral, tinha a plena consciencia do mal de que este ato era revestido, e assim como acontece hoje, simplesmente, por conveniência, interesse, medo ou por pura maldade mesmo, decidiam fazê-lo.

    Mais uma vez peço a gentileza de fazer afirmações perigosas deste tipo. Informações errôneas e distorcidas, usadas para mascarar, camuflar ou distorcer os fatos históricos e verdadeiros não são nada bons para sustentar a fé das pessoas. Cedo ou tarde, a verdade virá a tona e, ao invés de se atingir o objetivo planejado, ou seja, justificar a fé numa mentira, ter-se-à nas mãos uma revolta. Ninguém gosta de ser enganado, e por mais fé que se tenha e por mais humilde e ignorante que se possa ser, as pessoas saberão reconhecer a verdade.

    A verdade aliás é algo impressionantemente poderoso. Parafraseando o próprio Yeshua ben Yosef, “Ao se conhecer a verdade ela realmente te liberta”, e uma mente liberta é algo maravilhoso, pois consegue ver por de trás do véu que cega o entendimento.

    É também igualmente importante lembrar que os antigos Hebreus, e quando digo hebreus estou incluindo os patriarcas e profetas, NÃO ERAM MONOTEÍSTAS, eles eram MONÓLATRAS. Admitam a existências de múltiplos deuses, mas sustentavam que o seu Deus, que era apenas um, estava acima de todos os outros. Percebemos isso claramente nas narrativas do Gênesis, em que todos os pronunciamentos de Deus são feitos no plural e também nas leis mosaícas, quando Deus determina que NÃO TERÃO OUTROS DEUSES DIANTE DELE. Portanto, atribuir atraso moral ao fato de os outros povos serem politeísta é algo extremamente equivocado, aliás, gregos, egípcios, romanos, babilônios e outros tantos povos da antiguidade eram muito superiores ao povo hebreu do ponto de vista moral e cultural. Egípcios por exemplo mantinham uma política de liberdade religiosa, os gregos e romanos criaram praticamente tudo que temos hoje em termos de leis, estrutura de estado, democracia, conceitos morais e filosóficos e muito mais, a cointribuição desses povos é imensa e incalculável. Então fica uma pergunta, qual foi a contribuição do povo Hebreu para a melhoria do mundo? O que foi que eles fizeram afinal, além de fomentar a guerra e discórdia naquela região. Discórdia essa que perdura até os dias de hoje. Essa situação cultural e moral é tão evidente historicamente falando que o período de tempo compreendido entre a assunção e domínio do Cristianismo no final da idade antiga até meados da idade moderna e conhecido como “IDADE DAS TREVAS”. Durante este período, que é muito, muito mais recente que a idade antiga, atrocidades muito piores que as vista nos tempos antigos foram cometidas, e pior, foram cometidas “EM NOME DE DEUS”, bibliotecas foram queimadas, o conhecimento de milhares de anos foi perdido para sempre, “TUDO ISSO EM NOME DE DEUS”. Por acaso isso foi um avanço moral e cultural?

    AFIRMAR QUE DEUS, “O DEUS”, SERIA OMISSO E CONIVENTE COM ATOS AMORAIS E IMORAIS SOB O PRETEXTO DE TEMPORARIEDADE E TRANSITORIEDADE DA ADAPTAÇÃO HUMANA É, NO MÍNIMO, UM SACRILÉGIO, PARA NÃO SE DIZER QUASE UMA BLASFÊMIA.

    MAIS UMA VEZ, PEÇO-LHE A GENTILEZA DE NÃO SE FURTAR AO DEBATE SAUDÁVEL E NÃO OMITIR MEUS COMENTÁRIOS, ASSIM COMO TODOS OS OUTROS QUE PARTICIPAM DO FÓRUM, TUDO QUE EU QUERO É ENCONTRAR A VERDADE.

    Obrigado.

  5. conceição monteiro

    fiquei feliz em encontrar algo q me ajude a entender melhor este assunto tão cheio de contradições.DEus o abençôe sempre.

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